Artigo 3

MIRA Y LÓPEZ - Pioneiro da Psicologia e dos Direitos Humanos

*Jorge Trindade é Membro Titular da Academia Brasileira de Psicologia, ocupando a Cadeira n.12, cujo patrono é o Prof. Emilio Mira y López.

O Professor Emílio Mira y López nasceu em Santiago de Cuba, no dia 24 de Outubro de 1896. Cuba, a maior da Antilhas, era, naquela época, colônia espanhola e seu pai, médico militar, cumpria missão como especialista em doenças tropicais, tendo-se tornado famoso no tratamento da febre amarela.

Finda a guerra, a família retornou à Espanha, e, após permanecer quatro anos na Galícia, radicou-se em Barcelona, onde Mira y López viveu seus anos de formação intelectual, política e profissional. Bacharelou-se em 1911. Licenciou-se em Medicina em 1917 e doutorou-se em 1923 na Faculdade de Madri, com defesa de tese sobre psicotécnica intitulada: "Correlaciones somáticas del trabajo mental". Um ano depois, foi eleito Presidente da Sociedade Catalã de Psiquiatria e Vice-Presidente da Associação Espanhola de Neuropsiquiatria e Membro do Conselho Superior Psiquiátrico de Madrid.

Desde cedo revelou dotes intelectuais diversificados, tendo sido nomeado Professor de Psicologia e de Psiquiatria na Faculdade de Medicina de Madri. Entretanto, sua carreira de psicólogo já havia iniciado em 1919, no Instituto de Orientação Profissional de Barcelona, antecedendo seu próprio doutoramento.

Durante a guerra espanhola (1936-39), à semelhança de seu pai, foi Chefe do Serviço de Higiene Mental do Exército da República Espanhola. Com a vitória franquista, foi exilado. Acolhido como bolsista na Universidade de Londres, colaborou com as autoridades inglesas no preparo moral e psicológico da população para resistir à " blitzrieg" aérea.

Da Inglaterra, passou a ensinar em Harvard, Yale, Chicago e Washington, mas também em Cuba, na Universidade de Havana. No início de 1940, foi para Buenos Aires e dirigiu os serviços psiquiátricos da província de Santa Fé.

Diretor do Instituto de Orientação Profissional de Barcelona em 1927, integrou a Direção da Société Internatioale de Psychologie Appliquée de Paris e foi Membro da American Psychological Association, da Société Internationale de Criminologie e Vice-Presidente da Sociedade Inter-Americana de Psicologia.

Destacado na psicologia e na psicotécnica desde 1927, portador de uma vasta bagagem profissional e existencial, proferiu diversas conferências e cursos que sedimentaram as bases da psicologia aplicada no Brasil. Em 1947, acabou por transferiu-se para o Rio de Janeiro em atenção a um convite da Fundação Getúlio Vargas para dirigir o Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP -, ainda em fase de organização.

No Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP-, fundou um dos periódicos mais representativos no âmbito da psicologia no Brasil: Arquivos Brasileiros de Psicotécnica, hoje Arquivos Brasileiros de Psicologia. Antes que os cursos de psicologia fossem regularmente implantados no Brasil, Mira y López destacou-se na luta pelo reconhecimento da profissão de psicólogo, contribuindo para que o Brasil fosse o primeiro país do mundo a regulamentar essa profissão.

Foi autor de muitas obras técnicas, científicas e mesmo humanísticas, dentre as quais cabe salientar: Teoria y pratica Del psicoanálisis, Barcelona, 1926,1935; Manual de Psicologia Jurídica, Barcelona, 1932, B. Aires, 1944,1945,1950, trabalho clássico e agora recentemente reeditado no Brasil (2000); Manual de Psiquiatria, Barcelona, 1935, B. Aires, 1946; Psiquiatria, 4º ed., 3 vols.,Buenos Aires,1955; Problemas Psicológicos Actuales, B. Aires, 1940, 1941; Manual de Psicoterapia, Buenos Aires, 1941; Psicologia Evolutiva del Niño y Del Adolescente, Rosário, 1941,1944; Instantáneas Psicológicas, Buenos Aires, 1943; Fundamentos Del Psicoanálisis, Buenos Aires 1943; Psychiatry in War, Nova Iorque, 1943; La Psiquiatría en la Guerra, Buenos Aires, 1944; Higiene Mental Del Mundo de Postguerra, Buenos Aires, Buenos Aires, 1945; El Ñino que no Aprende, Buenos Aires, 1947; Psiquiatría Básica, Buenos Aires, 1948; Cómo Estudiar e cómo aprender, Buenos Aires, 1948; Quatro Gigantes da Alma, Rio, 1949, 1952, 1955, 1956, 1957, 1960, 1963, 1966, 1969; Lê Psycodiagnostic Myokinetique, Paris, 1951; Psicología Experimental, Ed. Kapelesz, B. Aires, 1955; Guia da Saúde Mental, Rio, 1956, 1961; Psicologia da Vida Moderna, Rio, 1964, 1966, 1969; Temas Atuais de Psicologia, Rio, 1969. Apesar dessas obras terem sido escritas sobretudo nos anos 40, Mira y López continuou a produzir até o fim de sua vida, deixando originais inéditos, ao falecer no Rio de Janeiro, em 16 de fevereiro de 1964.

A propósito de sua obra intitulada Psicologia Evolutiva del Niño y Del Adolescente, Rosário, 1941,1944, cuja tradução brasileira representou o estreitamento de laços com os educadores e formadores "deste grande país", o próprio autor, no prefácio da 5a edição, publicada pela Editora Científica do Rio de Janeiro, assim se pronunciou: "...Diga-se o que se queira, o êxito ou o fracasso, o progresso ou a involução deste como de todos os demais países do mundo, dependem, essencialmente, da eficiência com que suas gerações jovens são preparadas para enfrentar as atuais condições da vida humana".

Apesar dessas obras terem sido escritas sobretudo nos anos 40, o Professor Mira y López continuou a produzir até o fim de sua vida, deixando originais inéditos, ao falecer no Rio de Janeiro, em 16 de fevereiro de 1964.

Como o próprio Professor Mira y López escreveu em 1941, na motivação do Manual de Psicologia Evolutiva da Criança e do Adolescente, "toda a obra humana, por insignificante que seja, acha-se nitidamente vinculada à rota existencial de seu autor. Para avaliá-la, não basta conhecer este último; é indispensável saber as circunstâncias em que ele vivia ao produzi-la".

Preocupado em minorar o sofrimento humano, apontou sempre no sentido de que o melhor remédio para os males individuais ou sociais não pode ser imposto. Tem de vir de um desejo interior e consiste na possibilidade que o homem possui de conhecer-se a si mesmo, condição primeira para poder compreender o outro.

O Professor Mira y López também mostrou a grandeza e a fraqueza do homem e como elas habitam simultaneamente essa mesma casa. "De fato, depois de considerar-se o Rei da Craição , passa, quase que sem meio-termo, a julgar-se simples barro; umas vezes se considera como espírito próximo de Deus e outras como máquina de reflexos".

Nesse contexto, a obra de Mira y López muito contribuiu para que a psicologia ganhasse sua verdadeira dimensão. De um protótipo redutor e reducionista, passasse a psicologia a ser uma ciência integradora, plural, holística. Mira y López fez ver que é imprescindível romper a aporia materialismo-idealismo numa síntese dialética, a qual, justamente por ser dialética, é um contínuo vir-a-ser. Conforme as mutações dessa complexa síntese vital, o homem se apresentará ora como anjo, ora como demônio, impulsionado por instintos arcaicos ou marcado pela singularidade do mundo dos valores. Essa é a vitalidade da obra do professor Mira y López: mostrar a totalidade da psicologia como ciência e, daí, sua aspiração a ser infinita.

A vida humana é concebida, assim, como uma intermitente série de expansões-integrações e divisões-retrações. Sem o saber, antecipara a concepção bioniana PS↔D.

Para além disso, dissecou a três grandes emoções primárias do homem, onde residem seus fantasmas, sua fonte de agressividade destrutiva e a possessão do afeto: o medo, a ira e o amor. Mas como não estamos apenas diante do "homo natura", a cultura e a sobrevivência da humanidade radicam no "homo socialis". É precisamente aqui que entra em cena essa força chamada dever. São os QUATRO GIGANTES DA ALMA. O homem frio, neutro ou objetivo, tão veementemente apregoado pelo monismo radical, de repente, sente a aguilhoada vivencial do sentimento: "nossa vida se anima e colore a medida que se deixa penetrar pela angústia do medo, pela impulsiva fúria colérica, pelo arrebatador êxtase amoroso, ou pelo implacável "imperativo categórico do dever, os quatro gigantes da alma. A partir desse momento, o "Eu" se sente invadido e estrangulado pelos dedos, garras, redes e tentáculos de seus gigantes e assiste como mero espectador à sua terrível luta, para logo obedecer, qual submisso escravo, ao que saia vencedor, ainda quando por um breve espaço de tempo. A tão alardeada e pomposa "Razão" - que tão brilhantemente se exibe quando o indivíduo se acha fora da "zona" em que atuam aqueles - é agora igualmente sacudida e atirada de um para outro lado, com a mesma aparente simplicidade com que uma onda altera o rumo de um barco, o vento brinca com as folhas ou um terremoto desmorona uma casa. Por isso, não cabe considerá-la, até agora, senão como uma anã muito esperta e sabida, que é capaz, às vezes, de aproveitar o sono de seus tiranos para mostrar-se em toda a sua beleza ou, inclusive, de cavalgar a seu lado, quando estes vão a passo e não estão muito alertados".

Ao tratar do medo, do gigante negro que nos remete obrigatoriamente à morte, à falta, à exclusão, debruçou-se em particular sobre o medo imaginário: "é assim que os mortos assustam mais que os vivos; os fantasmas angustiam e torturam as mentes ingênuas muito mais que um bandido de carne e osso; em suma, o que não existe oprime mais do que aquilo que existe. Não obstante, seria injusto negar existência a isso que não existe, no sentido comum do termo, pois a verdade é que existe na imaginação, ou seja, criado por quem o sofre e, justamente por isso, não lhe pode fugir, pois seria necessário fugir de si próprio para conseguir safar-se de sua ameaça".

Ao se referir à ira, o gigante rubro, não tardou em ver sua gênese: "muito distante, na noite dos tempos, do negro ventre do medo, brotaram as rubras faces da ira. Esta rapidamente cresceu e se converteu no segundo dos quatro gigantes que atenazam o homem e fazem de sua vida um perpétuo drama".

Mas tem o mestre que cuidar do amor, esse sentimento impossível de se contentar com uma definição, por mais ampla que se a conceba. É pura expansão e, quando chega, é o momento de vermos a impossibilidade de separar a vida da morte, já que ambas são apenas aspectos complementares do mesmo conceito. "Pulvis est et in pulverem reverteris". Mas aí está, no vértice do ângulo que marca a passagem de uma para outra dessas vertentes, a raiz mais ancestral do amor, que outra vez se faz vida. Amor passsageiro ou duradouro, egoísta ou generoso, esquizóide, paranóide, maníaco ou melancólico. Amor compulsivo, ansioso, nutritivo ou mortal, imperialista, lúbrico, criador ou explosivo, não importa se em lise ou crise.

O amor "delicado e forte, puro e perverso, terno e cruel, audaz e tímido, sincero e teatral... não há contradição e antinomia que não possa ser encontrada na história do amor".

Por fim, Mira y López chega àquilo que definiu como a grande incógnita do homem. O homem que, "entre todos os animais, é o único capaz de contrariar seus impulsos vitais, proceder contrariamente a seus desejos imediatos e sentir essa indefinível vivência do arrependimento, quando procede desobedecendo as severas ordens de seu Dever". Do dever, para o qual é preciso morrer para se livrar, e, mesmo assim, temos o dever de lutar para conservar a vida.

Aprofundar as questões humanas mais complexas, eis a missão do Dr. Mira y López, um homem trabalhado pela adversidade, que se viu compelido a emigrar e conhecer o amargor dos campos de concentração e, mesmo assim, cumprir a busca de ajudar a construir um mundo livre, o melhor dos mundos possíveis.

Dele já disse um escritor platino que "não foi um teórico de liberdade. Foi um prático, um realizador desse espírito de liberdade". Pois é com esse espírito que ele ensinou a verdade sobre as emoções primárias, a verdade trágica e sublime da vida, mas sempre vista através de um ângulo estético e transcendental.

Por todas essas razões, juntas ou separadas, o Professor Emílio Mira y López inscreveu-se irrecusavelmente na história, nacional e mundial, como um dos LUMINARES DA PSICOLOGIA, a cuja memória a Academia Brasileira de Psicologia e a Academia Internacional de Psicologia, por intermédio daquele que tem a honra e a responsabilidade de ocupar a Cadeira que traz o seu nome, almejam, ainda que palidamente face à riqueza de sua contribuição, reverenciar.

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