SIGMUND FREUD

José Antônio Zago

Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria – Itapira – SP

Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba

Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Bairral

 

INTRODUÇÃO

     Algumas dezenas de biografias sobre Freud já foram escritas e publicadas, de Fritz Witels a Peter Gay, a mais recente.1 Seria muita pretensão elaborar uma biografia de Freud de maneira completa. Assim, o objetivo é apresentar os principais dados da vida e da obra de Freud, cujo pensamento é uma marco na história das idéias:

 

“Seja qual for a apreciação que se faça de sua obra, vendo nela quer um trabalho científico quer uma pura ficção, não se pode negar que Freud é o pensador mais importante de nosso tempo. O critério de um tal juízo é simples: depois dele, já ninguém escreve ou pensa como se fazia antes. A sua passagem marca um verdadeiro corte, e há poucos autores dos quais se possa dizer o mesmo: Platão e Kant na filosofia, Copérnico e Galileu na física, Marx nas ciências humanas... Freud, para além do domínio que reivindicou, a ciência do inconsciente, é o criador de um novo tipo de abordagem dos problemas que vemos impor-se em campos extremamente diversos.” 2

 

     A biografia  aqui apresentada fez parte como anexo de um estudo publicado anteriormente.3

     Achamos também importante esclarecer sobre o uso de cocaína por Freud, que não raramente é apontado ou assinalado pelos meios de comunicação social de forma a deixar dúvidas ou margem para interpretações errôneas.3, 4

     No final é apresentado um esquema da diversas correntes psicoterapêuticas a partir de Freud, evidenciando sua grande contribuição para com a psicologia em particular.

 

BREVE BIOGRAFIA DE SIGMUND FREUD 5,  6,  7, 8

     Em 1899 Freud escreveu esta nota autobiográfica, publicada em 1901 em alemão nas Biographisches Lexicon hervorragender Arzte des neunzehnten Jahrhunderts de J. L. Pagel:

     “FREUD, SIGMUND, Viena. Nascido a 6 de maio de 1856 em Freiberg, Moravia. Estudou em Viena. Aluno do fisiólogo Brücke. Promoção (título médico) em 1881. Aluno de Charcot em Paris de 1885-1886. Habilitado em 1885 (designado Privatdozent). Tem trabalhado como médico e docente na Universidade de Viena, desde 1886. Proposto como Professor Extraordinário, em 1897. Inicialmente os trabalhos de Freud trataram sobre histologia e anatomia do cérebro e posteriormente sobre temas clínicos de neuropatologia; tem traduzido os escritos de Charcot e de Bernheim. Über Coca, de 1884, é um trabalho introdutório da cocaína na Medicina. De 1891 é Zur Auffassung der Aphasien. De 1891 e 1893 são as monografias sobre as paralisias infantis, que culminaram, em 1897, no volume sobre o tema Handbuch, de Nothnagel. Studien über Hysterie, de 1895 (com o Dr. J. Breuer). Desde então Freud tem-se dedicado ao estudo das psiconeuroses e especialmente a histeria, e em uma série de breves ensaios tem enfatizado o significado etiológico da vida sexual nas neuroses. Também tem desenvolvido uma nova psicoterapia da histeria, do qual muito pouco se tem publicado. Um livro está no prelo: Die Traumdeutung (“A Interpretação dos sonhos”).” 5 (p. XLIII).

     Recebeu o prenome de Scholomo Sigismund, o qual Freud mudou para Sigmund em 1878.

     Nenhum dos textos anteriores ao ano de 1886 foi integrado às suas obras completas, por oposição de seus filhos e herdeiros Ernst e Anna Freud. Sua obra anterior aos textos de psicanálise, compreendendo o período de 1877 a 1886, é composta de 21 artigos sobre diversos temas: neurologia, medicina, histologia, cocaína. Sua obra sobre psicanálise é composta de 24 livros (dois dos quais com Josef Breuer, um com a colaboração de William Bullitt) e 123 artigos, além de comentários, prefácios, etc. e traduzida em cerca de 30 línguas. Nesta breve biografia destacamos algumas obras de Freud.

     Freud era o filho mais velho do terceiro casamento de Jacob Freud, comerciante de tecidos. Jacob e Amalia Freud teriam ainda mais sete filhos. Devido a má situação econômica, após um ano em Leipzig, a família mudou-se para Viena, Áustria, onde o pai estabeleceu seu comércio no bairro judeu de Leopoldstrasse.

     Freud começou seus estudos médicos em outubro de 1873, dedicando-se ao positivismo e à biologia darwiniana, a qual serviria de modelo a todos os seus trabalhos.

     Em 1874 pensou ir a Berlim para freqüentar os cursos de Helmholtz. Depois de um ano, por meio de uma bolsa de estudos, foi a Triestre, Itália, onde estudou sobre as células nervosas das enguias machos de rio. Tornou-se aluno do fisiologista Ernst Wilhelm von Brücke. Nesse período conhece e torna-se amigo de Josef Breuer.

     Depois de diplomado médico, em 1882 noivou com Martha Bernays, ocorrendo o casamento em setembro de 1886. Nos três anos seguintes à sua formatura trabalhou no Hospital Geral de Viena, abandonando, por questões financeiras, a carreira de pesquisador. Querendo tornar-se famoso e se livrar da pobreza, começou a pesquisar sobre alcalóide de cocaína, acreditando nas virtudes dessa droga. Chegou a administrá-la em seu amigo Ernst von Fleischl-Marxow, desconhecendo sua ação anestesiante e a de provocar a dependência. O efeito anestesiante da cocaína seria descoberto pelo oftalmologista Carl Koller.

    Em 1885 foi nomeado Privatdozent e obteve uma bolsa de estudo (Paris) onde foi conhecer o trabalho de Jean Martin Charcot, fascinado por suas experiências sobre a histeria. Depois, foi a Berlim onde fez os cursos do pediatra Adolf Baginsky. Retornando à Viena instalou-se como médico particular, dividindo três tardes por semana como neurologista na Clínica Steindlgasse.

     Em 1887 conheceu Wilhelm Fliess, médico judeu berlinense, com o qual trocou extensa correspondência íntima e científica, onde iniciou sua auto-análise, o intercâmbio sobre o caso Emma Eckstein e a publicação com Josef Breuer de Estudos sobre a histeria em 1895, onde são relatadas várias histórias clínicas de mulheres: Bertha Pappenheim (caso Anna O.), Fanny Moser (caso Emmy von N.), Anna von Lieben (caso Cäcilie M.) entre outras. Foi também durante essa amizade que Freud substituiu a teoria da sedução (toda neurose derivaria de um trauma real) pela doutrina da fantasia, concebendo então uma nova teoria do sonho e do inconsciente, fundamentada no recalque e no complexo de Édipo, inspirado pela tragédia de Sófocles.

     Em 1891 mudou-se para um apartamento da Rua Berggasse 19, vivendo com sua esposa, seis filhos e a cunhada Minna Bernays, permanecendo até seu exílio em 1938.

     Freud tratava basicamente de mulheres da alta burguesia vienense que eram consideradas “doentes dos nervos”. A princípio utilizava os meios terapêuticos disponíveis e aceitos na época como massagens, hidroterapia e eletroterapia. Constatando que esses métodos não davam resultados satisfatórios, começou a utilizar a hipnose, conforme os métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim. Com Breuer, Freud foi abandonando a hipnose e substituindo pela catarse e posteriormente inventou o método da livre associação e, finalmente, a psico-análise. Esse termo foi empregado pela primeira vez em 1896 e sua invenção foi atribuída a Breuer. Nessa época a doutrina das “localizações cerebrais” estava perdendo terreno para o associacionismo, que abriria caminho para a primeira formulação do conceito de “aparelho psíquico ” também em 1896.

     Em novembro de 1899 publicou  A Interpretação dos sonhos, embora a edição tenha sido datada em 1900. De 1901 a 1905 publicou seu primeiro caso clínico (Dora), A psicopatologia da vida cotidiana, O chiste e suas relações com o inconsciente e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

     Fundou em 1902 a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, primeiro centro de estudos de psicanálise, juntamente com Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Max Kahane e Rudolf Reitler. Já na primeira década do século ampliou o círculo de adeptos da doutrina freudiana e no primeiro quarto do século a psicanálise tornara-se também conhecida em vários países, como a Grã-Bretanha, Hungria, Suiça e costa leste dos EUA. Na Suiça, o médico Eugen Bleuler, chefe da clínica do Hospital  Burghölzli de Zurique, iniciou a aplicação do método psicanalítico no tratamento das psicoses, desenvolvendo o conceito de esquizofrenia. No Brasil as idéias de Freud foram divulgadas pela primeira vez pelo psiquiatra Juliano Moreira e entre 1914 e 1930 outros médicos contribuíram para a implantação da psicanálise no Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia: Arthur Ramos, Júlio Porto-Carrero e Francisco Franco da Rocha.

     Em 3 de março de 1907 Carl Gustav Jung, assistente de Bleuler, foi conhecer Freud em Viena. Publicou nesse mesmo ano Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Em 1909, em companhia de Jung e de Sandor Ferenzi, a convite de Stanley Hall, Freud pronunciou cinco conferências na Clark University de Worcester, Massachusetts, EUA, publicadas com o título de Cinco lições de psicanálise.

     Em 1908 ocorreu o primeiro congresso em Salzburgo, e, em 1910 Freud e Ferenzi criaram uma associação internacional, a IPV (Internationale Psychoanalytische Vereinigung), que em 1933 passaria a ser chamada de International Psychoanalytical Association (IPA). Embora avesso à tradição e rituais judaicos, Freud nunca negou ser semita. E temendo que a psicanálise fosse assimilada como uma “ciência judaica”, colocou Jung à testa do movimento psicanalítico. Entre 1909 e 1913 Freud publicou mais duas obras: Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância e Totem e tabu.

     Desde 1910 começaram algumas dissidências, e posteriormente as cisões, quer por questões pessoais, quer por questões teóricas; em 1911 Adler e Stekel, e Jung em 1913. Não suportando as traições à sua doutrina, próximo à Primeira Guerra Mundial, Freud publicou A história do movimento psicanalítico, na qual aponta as traições de Adler e Jung. De 1920 a 1923 mais três obras foram publicadas, por meio das quais Freud definiu sua segunda tópica: Mais-além do princípio do prazer, Psicologia das massas e análise do eu e  O eu e o isso. A partir da segunda tópica, da questão do narcisismo, do dualismo pulsional e da oposição entre o eu e o isso emergiram diferentes correntes do freudismo, como o kleinismo, annafreudismo, lacanismo, independentes, Ego Psychology e Self Psychology. A oposição entre a escola inglesa e a escola vienense começara no interior da IPA em 1924.

     Em fevereiro de 1923 foi descoberto um tumor maligno no lado direito do palato. Foi feita uma cirurgia com a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Freud tinha que usar, a partir de então, uma prótese. Sofreu ao todo, devido essa enfermidade, 33 cirurgias. Tinha dificuldade para falar, mas mantinha contato com seus interlocutores e mantinha suas atividades de rotina, abandonando apenas os problemas do movimento psicanalítico, conduzido então por Ernest Jones que presidiu a IPA a partir de 1934.

     Teve encontro com Salvador Dalí e manteve intercâmbio com Albert Eisntein. Freud era também apaixonado por telepatia, e com Ferenzi, entre 1921 e 1933, dedicou estudos a esse fenômeno, contrariando Jones que queria dar à psicanálise uma base mais racional e científica.

     Em 1926, depois de um processo contra Theodor Reik, Freud assumiu a defesa dos psicanalistas não-médicos publicando A questão da análise leiga. Tinha grande estima e acolhia no seio do movimento mulheres de vanguarda como Marie Bonaparte, Lou Andreas-Salomé, entre outras, contribuindo assim com a emancipação feminina.

     Em 1927 teve problemas de relacionamento com seu amigo o pastor Oskar Pfister ao publicar O futuro de uma ilusão, onde defendia a tese que a religião é uma neurose coletiva. E em 1930 a publicação de O mal-estar da cultura, pondo em dúvida a capacidade das sociedades democráticas controlar as pulsões destrutivas.

     Em março de 1938, quando da invasão da Áustria pela Alemanha, com a intervenção do diplomata americano William Bullitt e de um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud e sua família deixaram Viena indo para Londres, residindo em Maresfield Gardens 20; hoje Freud Museum. Redigiu nesse país seu último texto, Moisés e o monoteísmo.

     Freud faleceu em 23 de setembro de 1939 às três horas da madrugada, depois de dois dias de coma e de ter recebido de Max Schur, a seu pedido, com a concordância de Anna Freud, três injeções de três centigramas de morfina.

 

FREUD E O USO DE COCAÍNA3

     Na época em que Freud começou sua vida de pesquisador e médico havia um niilismo nos meios médicos de Viena quanto aos recursos terapêuticos disponíveis, como massagens, hidroterapia e eletroterapia, para aliviar o sofrimento dos doentes psíquicos.6 

     Freud, ao despertar seu interesse pela cocaína, não visava ganhar somente notoriedade, mas superar também o niilismo vigente com a descoberta de um método mais eficaz de tratamento para os distúrbios nervosos. Assim, não era um interesse exclusivo para obter prazer com a droga, mas como medicamento, para si (neurastenia) e para pacientes. Ernst Kris em Estudio Preliminar sobre Los Origenes del Psicoanalisis, mostrou que mesmo no  período antecedente à psicanálise, Freud tomava a si mesmo como sujeito em repetidas experiências, inclusive quanto o uso de cocaína (nota de rodapé - Sobre la coca; 1883: 84), e comunicava em seus trabalhos suas observações.9

     Freud usou cocaína de 1884 a meados de 1890, ou seja, 1895, ano em que teve o sonho da injeção de Irma. Neste sonho Freud contou que havia feito uso recente de cocaína para curar uma um inchaço nasal.10  A análise desse sonho apareceu em A Interpretação dos sonhos, publicada em 1899. Nessa obra Freud já reconhecia então que a cocaína provocava intoxicação grave, admitia que durante um tempo a prescreveu como medicamento, recebendo por isso severas censuras, e, uma das associações do sonho era um questionamento à sua conduta profissional.11  Sobretudo, ao descobrir, graças ao seu empenho, perseverança e dedicação de clínico e pesquisador, a regra fundamental do seu método de tratamento, a livre associação, Freud abandonava todas as outras técnicas ou recursos de tratamento, pois, a partir de então, o mais importante passou a ser o material comunicado pelo paciente.12  E o analista utilizaria esse material depois que o analisando tivesse formado uma sólida transferência. Esta “proporciona o estímulo para compreender e traduzir o inconsciente; onde ela se recusa atuar, o paciente não se dá a esse trabalho ou não houve quando apresentamos a tradução que chegamos. Ela é essencialmente uma cura através do amor.” 1

Se entendermos A Interpretação dos sonhos (1899) como marco da nova abordagem para o tratamento das neuroses, a obra de Freud, a psicanálise, está isenta de qualquer “ajuda” ou influência de suas experiências pessoais ou profissionais com cocaína

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.       AKOUN, A. Sigmund Freud. Em: Os 10 Grandes do Inconsciente. Lisboa: Verbo, vol. 4, 1979, p. 56.

2.       ROUDINESCO, E., PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998,  p.272.

3.       ZAGO, J.A. Freud e o uso de cocaína; história e verdade (Caso Histórico). Casos Clínicos em Psiquiatria 2 (1):  42-47.

4.       WASSERMANN, R. Substâncias hoje ilegais já foram usadas como remédio no passado. O Estado de S. Paulo, (Caderno Especial  - Drogas), 19 de setembro, 1999, p. 14.

5.       FREUD, S. Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1973, p. XLIII.

6.       ROUDINESCO, E., PLON, M. Op. Cit., pp. 272-279, 86-87, 438 e 239.

7.       FREUD, S. Autobiografia. Em: Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva; 1973: 2761-2799.

8.       HALL. C.S., LINDZEY, G. Teorias da Personalidade. São Paulo: Herder, EPU, 1974, pp. 43-92.

9.       KRIS, E. Estudio Preliminar – Los Origenes del Psicoanalisis. Em: Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1973, p. 3455.

10.   GAY, P. Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 56-57., 281, 555.

11.   FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos. Em: Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1973, pp.343-752.

12.     FREUD, S. Autobiografia, pp. 2780-2781.

13.     GAY, P. Op. Cit., p. 281.

 

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