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EDUCAÇÃO
PARA A PAZ
Ubiratan
D'Ambrosio *
I.
Uma Conceituação de Paz
A problemática de paz
deve ser o centro de nossas reflexões sobre o futuro. Violações da
paz não se resumem em confrontos militares, que são as guerras. Na
verdade, a paz é um conceito pluridimensional. Nosso objetivo deve ser
atingir um estado de paz total, sem o que o futuro da humanidade
estará comprometido.
Por paz total entendo a paz nas suas várias dimensões: a) a
interior - estar em paz consigo mesmo; b) paz social - estar em paz com
os outros; c) paz ambiental - estar em paz com as demais espécies e com
a natureza em geral; d) paz militar - a ausência de confronto armado.
Paz não é apenas a inexistência de divergências e conflitos. As
diferenças e, conseqüentemente, as divergências e conflitos, são
parte da diversidade que caracteriza todas as espécies, e são,
portanto, intrínsecas ao fenômeno vida. Cada indivíduo é diferente
do outro. A homogeneização da espécie humana é algo que contraria
frontalmente as leis biológicas e tem como resultado a anulação da
nossa vontade individual, em outros termos, causa a subordinação da
nossa consciência e a eliminação dos traços culturais. Essa
homogeneização é hoje uma ameaça efetiva em vista das possibilidades
atuais de manipulação genética.
A existência de diferenças é natural e o encontro com o diferente é,
em todas as espécies vivas, essencial para a continuidade da espécie.
Mas é incrível como, num curto tempo de sua presença neste planeta, a
espécie humana tornou esse encontro um ato sujeito à arrogância, à
inveja, à prepotência, à ganância e à agressividade. A ética tem
como grande objetivo transcender esse comportamento.
II. Uma Reflexão Sobre o Comportamento Humano
Uma reflexão sobre a paz pressupõe uma abordagem teórica. Teorias
resultam da escolha de categorias de análise. Para abordar a
problemática da paz, trabalho com categorias que permitem entender a
natureza humana e o fenômeno conhecimento, que é característico da
nossa espécie. Nenhuma outra espécie animal revela conhecimento com as
características da humana.
Devemos entender primeiramente o que é vida e como o ser humano se
comporta como uma espécie diferenciada.
Minha visão de homem repousa sobre a análise das seguintes categorias:
a) cosmos; b) planeta; c) vida, como a resolução das relações entre
cada indivíduo, outro(s) e a natureza; d) sobrevivência do indivíduo
e da espécie; e) homem, como uma espécie diferenciada; f)
transcendência; f) intermediações, criadas pelo homem, entre
indivíduo, outro(s) e natureza; g) comunicação; h) comportamento; i)
conhecimento; j) consciência e ética.
O problema fundamental é entender a relação entre o indivíduo e
o seu comportamento, isto é, entre o ser humano (substantivo) e ser
humano (verbo).
Ao longo da sua curta história, o homem tem procurado explicações
sobre quem é — e tem se acreditado o favorito de algum deus
— sobre o que é — e tem se acreditado um sistema complexo de
músculos, ossos, nervos e humores — sobre como é — e tem se
acreditado uma anatomia com vontade, e sobretudo quanto pode —
e tem se acreditado sem limitações à sua vontade e ambição.
Procurando entender quem é, o que é, como é, o homem constrói
sistemas de explicações que se organizam como história, religião,
ciência, arte. E na explicação do quanto pode, concebe o poder. Essas
explicações determinam a construção de modos de comportamento e
de conhecimento.
Temos avançado muito no conhecimento do ser humano. Mas a grande
angústia existencial, que resulta de não se encontrar uma resposta
satisfatória à questão maior "por quê sou?", dá origem a
contradições na qualidade de ser humano.
As violações da dignidade humana na civilização moderna, que chegam
até a exclusão e mesmo eliminação de indivíduos, levam alguns a
duvidarem da viabilidade de uma sociedade eqüitativa. A agressividade
desmensurada contra a natureza põe em risco a continuidade da espécie.
As distorções da maneira como o homem tem se acreditado induziram
poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância,
indiferença. Neste trabalho vou refletir sobre esse comportamento pelo
exame do cocnhecimento. O conhecimento tem sido utilizado para
justificar nossas ações, muitas vezes desencorajando críticas e dando
um caráter de verdade absoluta a crenças. Isso é particularmente
notado no pensamento ocidental, fragmentado em disciplinas.
O grande pensador Sri Aurobindo (1872-1950) escreveu, numa das mais
interessantes apreciações da cultura ocidental: "Para a filosofia
ocidental uma crença intelectual fixa é a parte mais importante de um
culto, é a essência de seu significado e o que o distingue dos outros.
Assim são que as crenças formuladas fazem verdadeira ou falsa uma
religião [uma teoria, uma filosofia, uma ciência], deacordo com sua
concordância ou não com o credo de seus críticos."
O comportamento e o conhecimento se constroem sobre crenças
intelectuais basilares, por muitos chamadas paradigmas. Comportar-se e
conhecer são identificados com o fazer e o saber. Na filosofia
ocidental, que culmina com a chamada filosofia moderna, fazer e
saber comparecem como ações distintas. O fazer está associado ao
material, ao corpo, ao manual, ao colarinho azul. O saberestá associado
ao espiritual, à mente, ao intelectual, ao colarinho branco.
As conseqüências dessa dicotomia e a valorização do saber sobre o
fazer são evidentes na organização da sociedade moderna, na economia
e na própria burocracia.Todo um processo de exclusão e de
hierarquização está ancorado nessa dicotomia. Quem sabe manda e o
fazer é interpretado como um ato de obediência.
A Vida Como Uma Tríade
O fenômeno da vida é inconclusivo e complexo, está em permanente
transformação e sujeito a uma dinâmica da qual sabemos muito pouco.
Identifico três elementos fundamentais para que a vida se realize, que
represento no que chamo de triângulo da vida (subentende-se
"indivíduo" e "outro" como da mesma espécie, e
"natureza" como a totalidade planetária e cósmica):

Os três componentes, o indivíduo o outro e a natureza,
são mutuamente essenciais. Vida significa a resolução desse
triângulo indissolúvel. Nenhum dos três componentes tem qualquer
significado sem os demais.
O indivíduo é um organismo vivo, complexo na sua definição e no
funcionamento de seu corpo, que age em coordenação com o cérebro,
órgão responsável pela organização e execução de suas ações. Um
corpo e um cérebro mutuamente essenciais, uma só entidade.
Os diferentes órgãos de um indivíduo interagem para manter o
organismo vivo. Mas essa interação não pode se limitar ao organismo.
Na verdade, a interação não pode ser no organismo, mas na tríade
indivíduo/outro/natureza. Essa interdependência mútua é que deve
servir de fundamento para entender a vida e o comportamento dos seres
vivos.
Em todas as espécies, na busca de sobrevivência, o indivíduo se
sujeita a comportamentos vitais básicos [meios]: a) reconhece o outro;
b) aprende; c) é ensinado; d) adapta-se; e) e cruza, com os objetivos
[fins] de sobreviver e de dar continuidade à espécie.
Uma questão maior, ainda não respondida é: "Quais as forças
que levam os seres vivos a esses comportamentos vitais?"1
O homem, como todo organismo vivo, é complexo na sua definição e no
seu funcionamento, e está sujeito aos mesmos comportamentos vitais
básicos de todo ser vivo. Busca sobrevivência. A sobrevivência
depende da resolução do triângulo da vida, que se dá no momento e no
local. É uma ação no presente espacial e temporal. Espaço e tempo
significam o aqui e o agora.
Mas diferentemente dos demais seres vivos e mesmo das espécies mais
próximas, o homem busca algo além da sobrevivência. Algumas vezes
até rejeita sua sobrevivência.2
Esse algo mais é a superação do presente, estendendo sua percepção
de espaço e de tempo para além do presente e dop visível. O homem
incursiona no passado e no futuro. Indaga sobre o que e como foi, e
sobre o que e como será. Procura explicações sobre o passado e
predições sobre o futuro, transcendendo espaço e tempo, criando
representações sobre o que não vê.
A busca desse algo mais leva a indagar sobre o fenômeno vida, para o
que é necessário conhecer o cosmos e o nosso habitat — o planeta
Terra. O cosmos tem sido uma das grandes indagações do ser humano.
Explicar o cosmos tem sido uma das primeiras motivações para construir
sistemas de conhecimento. Inserido no cosmos está o nosso planeta, a
Terra. Têm havido muito progresso nas explicações sobre o cosmos e o
planeta Terra, e conseqüentemente sobre o fenômeno vida, sempre
revelando incertezas e contradições.
As Intermediações Criadas pela Espécie Humana
Onde se situa a diferença de comportamento entre a espécie humana
e as demais espécies?
O comportamento humano resulta de duas grandes pulsões: 1. A sobrevivência,
do indivíduo e da espécie que, como em toda espécie viva, se situa na
dimensão do momento; 2. A transcendência do espaço e do tempo
que, diferentemente das demais espécies, se situa numa outra dimensão,
levando o homem a indagar "por quê?", "como?",
"onde?", "quando?".
Sobrevivência e transcendência guardam uma relação simbiótica e
distinguem o ser humano das demaisespécies. Na resposta às pulsões de
sobrevivência e de transcendência surgem intemediações nas
relações essenciais do indivíduo com a natureza e com o (s) outro (s)
e o homem incursiona no passado, buscando explicações, e no futuro,
buscando predições. Nesse incursionar gera conhecimento, que é
reconhecido nas habilidades, nas técnicas, nos mitos e nas artes, nas
religiões e nas ciências.
A diferença essencial entre a espécie humana e as demais espécies é
o fato de termos criado, ao longo da nossa evolução, instrumentos,
comunicação, principalmente a linguagem, e um sistema de produção,
que servem de intermediações para a resolução do triângulo da vida:

Criar e utilizar essas intermediações são possíveis graças ao
encontro de comportamento e conhecimento. A percepção dos acertos e
equívocos desse encontro é o que chamo consciência.3 No
encontro com o outro, que também está em busca de sobrevivência e de
transcendência, desenvolve-se a comunicação.
Valores
O comportamento de cada indivíduo é aceito pelos seus próximos
quando subordinados a parâmetros, que denominamos valores, e que
determinam os acertos e equívocos na produção e utilização das
intermediações criadas pelo homem para sua sobrevivência e
transcendência.
Valores, assim conceituados, relacionam os meios com os fins. Os fins
constituem as grandes utopias de indivíduos e de sociedades, dos
sistemas de explicações e dos mitos, da cultura. Os meios dependem dos
instrumentos materiais e intelectuais de que dispomos, também
dependentes da cultura. Assim, os valores são manifestações
culturais.
Uma excursão pela história revela que novos meios de sobrevivência e
de transcendência fazem com que valores mudem. Mas, alguns valores
permanecem: a) respeito pelo outro (o diferente); b) solidariedade com o
outro; c) cooperação com o outro. Esses valores constituem uma ética
maior, sem a qual a qualidade de ser humano se dilui.
Mas por que a humanidade caminha em direção contrária a essa
ética, sema a qual a espécie humana não pode sobreviver?
Essa questão maior tem sido a motivação dos grandes modelos
filosóficos, religiosos e científicos. Os modelos filosóficos,
religiosos, científicos propõem "verdades" que têm sido
aceitas como absolutas e que constituem sistemas de valores que guiam o
comportamento humano. Os valores mudam, subordinados ao que prevalece
nos sistemas sociais e econômicos.
Em muitas sociedades, a prioridade passa a ser a defesa do sistema
de valores. A questão fundamental, que é a busca de sobrevivência
associada à transcendência, pasa aser subordinada à defesa do sistema
de valores (fundamentalismos). É oportuno lembrar a citação de
Aurobindo no início deste trabalho. Os sistemas de valores, da mesma
maneira que as ciências e as religiões, são vistos na cultura
ocidental como saberes concluídos, que têm uma arrogância intrínseca
à própria concepção do concluído.
O conhecimento disciplinar, e consequentemente a educação, tem
priorizado a defesa de saberes concluídos, inibindo a criação de
novos saberes e determinando um comportamento social a eles
subordinado.4 Ele evoluiu para a multidisciplinaridade, praticada nas
escolas tradicionais, e para a interdisciplinaridade, ainda difícil de
ser conseguida. Mas o verdadeiro avanço, abrindo novas possibilidades
para o conhecimento, é a transdisciplinaridade.5
A transdisciplinaridade, assumindo a inconclusão do ser humano,
rejeita a arrogância do saber concluído e das certezas convencionadas
e propõe a humildade da busca permanente. O comportamento humano
responde às pulsões de sobrevivência e de transcendência, que estão
intimamente ligados. Vai além de comportamento orientado pelo cérebro.
Existe algo mais: a mente, que tem intrigado os filósofos desde a
antiguidade, e a consciência, igualmente intrigante.
Onde se situam mente e consciência? No cérebro, que vem sendo tão bem
estudado pelos reurologistas? Ou no que se costuma chamar inteligência,
hoje bem estudada, inclusive no âmbito de uma disciplina que
curiosamente se denomina inteligência artificial? E o que é
inteligência? 6 As teorias vão surgindo, vão sendo aceitas ou
recusadas, algumas marginalizadas e outras refutadas. Algumas idéias,
que são aceitas por se desviarem pouco das anteriores, se tornam as
novas explicações e encontram seu espaço nas universidades. 7 Outras
idéias se desviam dos chamados paradigmas e criam novos paradigmas. 8
As teorizações sobre a evolução do cocnhecimento em geral se limitam
a apenas alguns dos fatores que participam da dinâmica do conhecimento.
Uma categoria fundamental para a análise do comportamento humano é o
poder, entendido no sentido amplo da organização sobre a qual se
fundam famílias, sociedade e nações. As sociedades humanas modernas
são grupos de indivíduos que se comportam em conformidade com normas e
valores estabelecidos ao longo da história, resultado de tradições e
eventos.
III. Uma Proposta Educacional
Por meio de sistemas educacionais, as sociedades transmitem e
inculcam valores que servem de apoio às normas vigentes e aos estilos
de comportamento, sobre os quais se apóia a estrutura de poder. Embora
para muitos possa parecer um paradoxo, nesses mesmos sistemas
educacionais estão embutidos os instrumentos intelectuais que permitem
a crítica e a contestação do poder, eventualmente a sua
modificação. Juntamente com a transmissão de valores, um sistema
educacional tem como meta o desenvolvimento da capacidade de crítica e
de contestação.9
Há modelos educacionais nos quais não se desenvolvem a capacidade de
crítica e de contestação. São baseados na obediência.10 Mas o que
se nota é que mesmo na transmissão pura e simples de valores, os
sistemas educacionais muitas vezes falham. Sempre ficamos chocados
quando vemos uma pessoa com um bom nível educacional comportando-se de
maneira criticável, algumas vezes até abominável. Por que a
educação muitas vezes não influi no seu comportamento?
Paradoxalmente, o conhecimento é muitas vezes utilizado para um
comportamento ainda mais criticável.11
Uma discussão sobre valores não pode escapar de umareflexão sobre a
relação meios-fins. E uma discussão sobre educação tampouco pode
escapar dessa relação, que se traduz em afirmações sobre a
importância da educação. São valores associados à ação educativa.
Espera-se o efeito da ação educativa no comportamento dos indivíduos.
O currículo, que é aestratégia da ação educativa, tem como
finalidade maior o comportamento dos indivíduos que passam pelo
processo. Como o currículo é baseado em cocnhecimento, em saberes e
fazeres, somos levados a uma questão maior: como se relacionam
conhecimento e comportamento?
Obediência e Ética
Valores e obediência muitas vezes se confundem com conhecimento e
comportamento. A obediência é muitas vezes resultado de temor de
represálias pela autoridade legítima. Poder é muitas vezes
identificado associado à obediência. Desde o temor de punição
eterna, num cenário místico, até o temor de punições físicas, como
suplício, mutilação e morte, materiais, como multas e confiscos, e
morais, como cesura, confinamento e exclusão.
Mas a ameaça de represálias gralmente não está no discurso que
respalda o poder. A obediência se obtém de maneira mais sutil, sem
recurso às ameaças. Muitas vezes se dá por meio de recompensas, tais
como prêmios, distinções e cooptação nos círculos de poder.12 Mas
sobretudo graças à açeitação de um sistema de valores.
No sistema de valores estão incorporadas as atitudes com relação ao
outro, que se estendem a grupos de outros identificados por
características étnicas, culturais e religiosas. A partir daí se
constroem os fundamentalismos, comuns nas sociedades, com os mais
variados graus de intensidade.
A percepção de uma ameaça no outro é o ponto de partida para a
intolerância do diferente, e a partir daí se parte para a defesa
preventiva, que leva inevitavelmente ao ataque.
Uma outra forma de obediência que resulta de um sistema de valores é
assumir como normal a prática de consumismo irresponsável, ganância
desmedida e corrupção. São os ingredientes sobre os quais repousa o
abuso e posteriormente a agressão ambiental. Muitas vezes nos
deparamos com indivíduos que tiveram educação esmerada e adquiriram
um bom nível de conhecimento, mas que têm um comportamento agressivo
com relação ao ambiente.
Devemos subordinar o sistema de valores a uma ética maior, uma ética
que cruze culturas e que coloque prioridade na sustentação do
triângulo da vida. Uma proposta é a ética da diversidade: 1) Respeito
pelo outro, com todas as suas diferenças; 2) Solidariedade com o
outro nasatisfação das necessidades de sobrevivência e
transcendência; 3) Cooperação com o outro na preservação do
patrimônio natural e cultural comum. Essa é uma ética que conduz à paz
interior, à paz social, à paz ambiental e
consequentemente, à paz militar. Atingir essa paz total é
o objetivo maior da educação. Como organizar os sistemas educacionais
em função desse objetivo maior?
Sobre
o Currículo
Como
estratégia da ação educativa global, proponho um currículo
dinâmico, que foge radicalmente das propostas conteúdistas que dominam
o currículo atual. Uma profunda reconceituação de currículo tem sido
rejeitada por educadores, em geral. Mas o que vem a ser currículo? É
muito importante que se reconheça que uma aula ou prática educativa é
um processo. A esse processo chamamos ação educativa, que como toda
ação, resulta de uma estratégia. Para o desempenho da ação
educativa o professor vai munido de uma estratégia. Daí a definição
que tenho adotado: currículo é a estratégia para a ação
educativa.
O
ponto crítico é a passagem de um modelo de currículo cartesiano,
estruturado previamente à prática educativa, a um currículo
dinâmico, que reflete o momento socio-cultural e a prática educativa
nele inserido. O currículo dinâmico é contextualizado no sentido
amplo.
O
currículo cartesiano, tradicional, é baseado nos componentes
objetivos, conteúdos e métodos. Obedece a definições obsoletas de
objetivos do que era a sociedade — objetivos conservadores. Ensina
conteúdos que num determinado momento histórico tiveram sua
importância, mas que agora são ancorados em argumentos
insustentáveis.
E
assim eles são transmitidos com métodos definidos a
priori, sem conhecer os alunos e baseados numa estratificação
destes em faixas etárias e "níveis de desenvolvimento
intelectual" estabelecidos numa situação de laboratório. Tais
objetivos, conteúdos e métodos não reconhecem as experiências e as
expectativas de cada indivíduo, que resultam de sua história
individual e coletiva. Sintetizando: são conclusões em geral inúteis,
transmitidos com uma metodologia falsificada e falsificadora.
O
currículo dinâmico parte do reconhecimento que nas sociedades modernas
as experiências e interesses dos indivíduos são distintas e,
portanto, as classes são heterogêneas, tendo alunos de interesses
variados e detentores de uma enorme gama de conhecimentos prévios.
Todos esses alunos têm potencial criativo, porém orientados em
direções imprevisíveis e com as motivações mais variadas.
O
currículo, isto é, a estratégia da ação educativa, depende de
facilitar a troca de informações, conhecimentos e habilidades entre
alunos e professor/alunos, mediante uma socialização de esforços em
direção a uma tarefa comum. Essa tarefa comum pode ser um projeto, uma
discussão, uma reflexão e inúmeras outras modalidades de ação
comum, em que cada indivíduo contribui com o que sabe, com o que tem,
com o que pode, levando ao máximo o seu empenho na concretização do
objetivo comum.
Resumindo:
o currículo dinâmico é uma estratégia de ação comum e repousa
sobre três etapas que se desenvolvem simultaneamente:
a)
motivação, resultado
de condições emocionais e da interface passado/futuro;
b)
elaboração de novo conhecimento, mediante a
troca/construção/reconstrução de conhecimentos;
c)
socialização, por meio da realização de tarefas comuns.
Socialização.
Esse conceito de currículo serviu de fundamento para um curso de
Mestrado que coordenei, a partir de 1975, na Universidade Estadual de
Campinas, em convênio com o Ministério de Educação e com a
Organização dos Estados Americanos, destinado preparar liderança para
inovações no Ensino de Ciências. 13
O
curso era focalizado na problemática da paz no sentido pluridimensional
discutido neste trabalho. Essa foi minha primeira organização das
idéias expostas neste trabalho como uma efetiva proposta curricular.
Foi a oportunidade de se investigar a possibilidade de uma prática
educacional baseada na transdisciplinaridade.
Outras
maneiras de propor a transdisciplinaridade vêm surgindo de muitas
áreas do conhecimento. A visão holística, a complexidade ou
pensamento complexo, as teorias da consciência, as ciências da mente,
a inteligência artificial e inúmeras outras propostas
transdisciplinares vêm sendo elaboradas e se tornando conhecidas.
O
pensamento complexo tem sido particularmente destacado. Humberto
Mariotti deixa bem claro o que se pretende com o pensamento complexo:
“Referindo a algo que pode atenuar um modo de viver segundo o qual com
enorme freqüência a palavra é separada do real, a justiça se
preocupa menos com o sofrimento dos homens do que com a letra da lei, e
esta busca verdades que pouco ou nada têm a ver com o cotidiano."14
E propõe cinco saberes que caracterizam o pensamento complexo e que
constituem a essência de uma outra maneira de estar no mundo:
a)
saber ver;
b)
saber esperar;
c)
saber conversar; d
)
saber amar;
e)
saber abraçar.
Esses
saberes implicam comportamentos. O abraço se inicia a partir da mão
estendida, que é o ponto de partida para o processo de busca da
espiritualidade por meio do encontro com o outro.
Nesses
comportamentos está implícito um sistema de valores. Vivenciar esse
sistema de valores no cotidiano é o código de conduta que pode redimir
o ser humano. Esse vivenciar implica, muitas vezes, desobediência a
ordens e normas de conduta. Alguns se sentem encorajados a essa
desobediência numa ação de grupo. São transgressões que, mesmo
sujeitas a repressão, deflagram os grandes movimentos sociais.
Outros,
mesmo sem estar amparados por alguma forma de poder e, às vezes, até
contrariando a autoridade, têm a coragem de agir só, fazendo valer o
maior dom de ser humano, que é o exercício de sua livre vontade.
Cumprir ordens, em conflito com a vontade, não é suficiente como
código de conduta. A conduta que pode conduzir o ser humano à
redenção resulta de se atingir o estado de consciência, quando
conhecimento e comportamento estão solidários.
(Este
texto corresponde a palestra feita por ocasião do 5° Congresso da
Escola Particular Gaúcha, patrocinado pelo SINEPE/RS em Porto Alegre,
de 19 a 21 de julho de 2000.)
Notas
Economia
do conhecimento” e “riqueza do saber” tornaram-se clichês.
1.No
seu excelente livro, já clássico, Humberto Maturana e Francisco
Varela: A Árvore do
Conhecimento. As bases biológicas do entendimento humano, Editorial
Psy II, Campinas, 1995, introduzem o conceito de autopoiesis para
explicar como um organismo se mantém vivo.
2.
A espécie humana é a única a praticar suicídio. Há uma forma de
suicídio de células cancerosas e mesmo a prática individual do
suicídio em algumas espécies, mas obedecendo a mecanismos
fisiológicos. Suicídio sem o objetivo maior de dar continuidade à
espécie é conhecido somente na nossa espécie.
3.Ver
Ubiratan D’Ambrosio: A Era da
Consciência, Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 1997.
4.
Particularmente prejudicial para a evolução da humanidade tem sido a
maneira como o estabelecimento, o poder, expropriou as religiões
derivadas do judaísmo e a ciência que delas resultou e criou
mecanismos para desencorajar o surgimento de novas idéias. A academia,
utilizando mecanismos brutais de marginalização e exclusão, tais como
recusa a emprego, impecilho à publicação, bloqueio a facilidades de
pesquisa, difusão de rumores desabonadores e outras tantas estratégias
para desencorajar o novo pensar. Há inúmeros exemplos desse tipo de
ação. Ver o estudo de Brian Martin: Strategies for Dissenting
Scientists, Journal of Scientific
Exploration, vol. 12, n°4, 1998; pp.605-616 e a bibliografia.
5.
Ubiratan D’Ambrosio: Transdisciplinaridade,
Editora Palas Athena, São Paulo, 1997.
6.
Cérebro, mente, pensamento, inteligência, consciência são alguns dos
termos usados para se escapar do dualismo corpo/mente. Ver
o livro do neurofisiologista William H. Calvin: How
Brains Think. Evolving Intelligence, Then and Now, Basic Books, New
York, 1996.
7.
Essa é, em essência, a explicação da evolução do conhecimento
proposta por Karl Popper.
8.
Essa é uma outra explicação sobre a evolução do conhecimento, que
Thomas Kuhn chamou revolução científica.
9.
Ver Ubiratan D’Ambrosio: Educação
para uma Sociedade em Transição, Papirus Editora, Campinas, 1999.
10.
Entendo obediência no comportamento e no conhecimento. Voltarei ao tema
mais adiante.
11.
Basta atentar para o fato que um dos crimes mais execráveis, que é o
seqüestro para retirada de órgãos, só é possível com a
participação de médicos e engenheiros com formação especializada.
12.
Saborear migalhas dá a sensação de se estar participando do banquete!
13.
Ver Ubiratan D’Ambrosio, organizador: Ensino de Ciências e
Matemática na América Latina, UNICAMP/Papirus Editora, Campinas, 1988.
14.
Humberto Mariotti: As Paixões do
Ego. Complexidade, Política e Solidariedade, Editora Palas Athena,
São Paulo, 2000; p.324.
(2003)
*
UBIRATAN
D'AMBROSIO
é matemático
nascido
no Brasil. Professor Emérito da UNICAMP, São Paulo (Matemática).
Consultor da UNESCO e da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Professor visitante da Universidade Regional de Blumenau. Professor de
pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
além de outras universidades. Membro do Conselho da Pugwash Conferences
on Science and World Affairs. Publicou, entre outros livros: Educação
para uma Sociedade em Transição (Campinas, Papirus), Etnomatemática:
Elo Entre as Tradições e a Modernidade (Belo Horizonte,
Autêntica, 2001) e Etnomatematica
(Prefazione di Bruno D’Amore), Pitagora Editrice, Bolonha, 2002.
E-mail
— ubi@usp.br
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