Donald Woods Winnicott:

a expressão de humano no fazer criativo

 

Carmem Aristimunha de Oliveira

Mestre em Psicopatologia-Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada – Lisboa/Portugal. Especialista em Diagnóstico Psicológico pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Docente da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)

Tomando ciência de que deveria escolher um patrono, uma vez da nomeação para a Academia Brasileira de Psicologia, muitos nomes se fizeram presentes. A escolha de Winnicott não se deu ao acaso, pois na minha trajetória acadêmica, percebi com ele que o humano tem seu lado científico e criativo, que o ambiente é importante no desenvolvimento infantil e que a esperança é o maior sonho das crianças. Muitos teóricos contribuíram para a compreensão da Psicanálise, porém Winnicott o faz de modo afetivo. Basta citar o seu pensamento, que talvez melhor me faça entender: "pode-se dizer que existem dois caminhos para a verdade: o poético e o científico. O poeta que existe em mim alcança a verdade num lampejo, e o cientista que há em mim busca uma faceta da verdade" (WINNICOTT, 1965).

 

O eixo principal deste trabalho funda-se em trazer à luz algumas considerações acerca da vida e obra de Winnicott. A partir de alguns teóricos revisitados, buscou-se direcionar o leitor, não se tendo a pretensão de aprofundar conceitos, uma vez que muito ainda deve-se caminhar para maior apropriação. Assim, saber viver no pensamento de Winnicott não é só uma arte, mas é viver o presente intensamente. Desta forma, deixo aqui um pensamento de Goethe, que vem de encontro com o que Winnicott representou e representa até os dias de hoje em minha carreira acadêmica:

 

"Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma, poder, o gênio e a magia". (Goethe)

 

 

Donald Woods Winnicott

 

Winnicott desfrutou de uma rica e plena vida pessoal. Seus hobbies favoritos incluíam a pintura e a música. De pequeno, participou de recitais de piano em sua Escola Metodista Wesleyan, de Cambridge, o Colégio Leys, e, mais adiante, na idade adulta, continuou seu amor pela música, apreciando desde dos Quartetos de Cordas, de Ludwig Van Beethoven aos êxitos do pop de The Beatles.

 

IMAGINE

Você pode achar que sou um sonhador
Mas não sou o único
Espero que algum dia você se una a nós
E o mundo irá viver como um

Imagine não haver posse
Eu pondero se você consegue
Sem necessidades para ganância ou fome
Uma irmandade de homens

Imagine todas as pessoas
Dividindo todo o mundo...

(Trecho da música Imagine – Beatles)

 

A INFÂNCIA ...

 

Caçula e único filho homem de John Frederick Winnicott e Elizabeth Martha Woods Winnicott, Donald Woods Winnicott nasceu em 7 de abril de 1896, em Plymouth na Inglaterra.

 

Suas tantas conquistas parecem ter ligação com as origens de seu próprio nome: "Donald" - nome profético derivado da antiga palavra celta que significa "poderoso, vigoroso"; "Winn", palavra saxônica que possivelmente signifique "amigo"; e de "Cott", "casa" que sugere "estabilidade de vida".

 

Frederick Winnicott, que o próprio Winnicott descrevia como sendo, "extremamente preocupado, durante meus primeiros anos, com a cidade e com os negócios" (CLARE WINNICOTT, 1978, p. 23). Também teve sua trajetória brilhante: cursou a Escola da George Street, em Plymouth; foi Secretário Honorário do Instituto de Mecânica; Presidente da Associação Mercantil de Plymouth; e, em 1924, agraciado Cavaleiro, pelas mãos do Rei George V, no Salão de Gala do Palácio de Buckingham.

 

Já a mãe, Elizabeth Winnicott, filha de um químico e farmacêutico de Plymouth, supervisionava a casa e cuidava de Donald e de suas duas filhas mais velhas, Violet, nascida em 1889, e Kathleen, em 1891. Além da família nuclear, viviam na casa uma tia de nome Delia, a babá de Donald, Allie, e uma governanta para Violet e Kathleen (CLARE WINNICOTT, 1978), além de uma cozinheira e várias copeiras (JOHNS, 1991).

 

Winnicott pai dedicava tanto tempo à cidade, exceto aos domingos, reservado à Igreja Não-Conformista, em que o jovem Donald tinha o prazer de voltar para casa caminhando ao lado do pai, por cerca de dez minutos (entrevista com Clare Winnicott: Neve, 1983) que acabou deixando seu filho rodeado e mimado somente por mulheres: mãe, irmãs, tias, babá, governanta, cozinheira, copeira e as diversas parentes que viviam do outro lado da rua, levando-o mais tarde a referir-se a elas, como sendo suas "múltiplas mães" (CLARE WINNICOTT, 1978, p. 23).

 

Diante deste relacionamento quase que escasso com o pai em seu desenvolvimento, sua dedicação em pesquisar voltou-se para a essência da maternidade e a relação entre a criança e a mãe, deixando de lado a figura paterna e focando a maior parte do seu trabalho apenas na mãe e no bebê, o que foi de vital importância para a pesquisa psicanalítica.

 

Winnicott teve um objeto transicional – uma boneca chamada "Lily", que havia pertencido a Kathleen, a mais nova de suas irmãs. Violet e Kathleen tinham outra boneca, "Rosie", e aos três anos de idade Donald quebrou seu nariz com um malho de croquet. Frederick Winnicott, usando palitos de fósforos, aqueceu o nariz de cera da boneca e conseguiu remodelar o seu rosto. Esta passagem na vida de Winnicott, veio a contribuir anos mais tarde para colocar que existe a possibilidade de expressar hostilidade sem aniquilar o objeto de nossa fúria e que isso é extremamente importante para a vida de um sujeito.

 

A PROFISSÃO ...

 

Winnicott foi grande admirador do trabalho de Darwin, e influenciado pelas teorias dele vai, ao longo de sua obra, tratar das origens da vida psíquica, chegando a cogitar graduar-se em Biologia após concluir a Medicina.

 

A escolha pela Medicina: a decisão de fazer Medicina veio com a seguinte constatação: "pude ver que, pelo resto da minha vida, se ficasse doente, teria de depender dos médicos; a única saída para essa posição era tornar-me médico eu próprio." (WINNICOTT)

 

A formação universitária: iniciou o curso de Medicina em Cambridge, porém desistiu de dedicar-se à cirurgia quando foi estagiário em um destróier britânico durante a primeira Guerra Mundial. Em 1920, completou os estudos médicos.

 

A carreira: em 1923, obtém o cargo de médico no Hospital Paddington Green Children, em Londres. Neste mesmo ano, começou sua análise pessoal com o Dr. James Strachey, tradutor oficial de inglês, das obras completas de Sigmund Freud. Embora sua prática clínica como pediatra tenha sido iniciada antes de suas atividades como psicanalista, seu interesse pela psicanálise já se havia despertado antes de seu ingresso na pediatria. Na verdade, no ano de 1919, quando contava com apenas 23 anos e aspirava ser médico clínico no campo, percebeu sua incapacidade para lembrar-se de seus sonhos. Deparou-se, então, casualmente em uma livraria, com um livro sobre Freud escrito pelo suíço Oskar Pfiste e, paralelamente a isso, um amigo lhe emprestou a Interpretação dos Sonhos, despertando-lhe grandes afinidades. E assim, segundo Clare Winnicott, dois motivos levaram Winnicott à pediatria: a admiração por um pediatra famoso e o desejo de submeter-se à análise, o que só era possível em Londres.

 

A formação psicanalítica: em 1927, Winnicott foi aceito para começar sua formação analítica na Sociedad Psicoanalítica Británica. Em 1934, concluía sua formação como analista de adultos e em 1935, como analista de crianças, sendo considerado, por três décadas, um fenômeno isolado, pois nenhum outro analista era pediatra.

 

A partir do tratamento de crianças psiquicamente perturbadas e de suas mães, surge a sua experiência clínica-teórica e a construção de suas teorias. É da prática clínica que vimos à teorização e desenvolvimento das "consultas terapêuticas". Estas se constituirão importantes aportes nas inovações clínicas.

 

As novas correntes: em 1926, chega à Londres Melanie Klein, também analista de crianças. Rapidamente Melanie Klein se torna uma referência para os analistas infantis, criando-se uma escola de fundamental importância para o desenvolvimento de psicoanalistas.

 

Nesta mesma época, Winnicott acaba por fazer um extenso tratamento analítico com uma das principais seguidoras de Melanie Klein: Joan Rivière. Os Kleinianos falavam da importância do primeiro ano de vida do bebê na estruturação do aparelho psíquico, o que era igualmente compartilhado por Wiinnicott.

 

As divergências teóricas entre Melanie Klein e Anna Freud, nesta época, eram evidentes, criando-se uma polêmica dentro da Sociedade Psicanalítica Britânica entre os seus seguidores.

 

Em 1945, foi selado um compromisso tipicamente britânico dentro da sociedade, com o surgimento de três grupos políticos: os Freudianos, coordenados por Anna Freud; os Kleinianos, coordenados por Melanie Klein; e o Middle Group, coordenado por Winnicott, conhecido hoje como o Grupo Independente – que contou com figuras importantes como Michael Balint, John Bowlby, Masud Khan, Pearl King, John Klauber, Margaret Little, Marion Milner, Charles Rycroft e vários outros. Embora Winnicott não tenha formalmente se tornado seu líder, foi o mais importante incentivador dessa linha de analistas dentro da Sociedade Britânica de Psicanálise.

 

A trajetória de Winnicott e suas obras: os anos em que transcorreram a Guerra, foram de importância para Winnicott, uma vez que teve a possibilidade de tratar crianças profundamente perturbadas, vítimas de separação familiar.

 

O cargo de Consultor Psiquiátrico na área do "Esquema de Evasão governamental" proporcionou-lhe experiências e novas considerações acerca do seu pensamento sobre a importância da mãe na constituição psíquica da criança.

 

Quando terminou a guerra, Winnicott foi nomeado Diretor do Departamento Infantil do Instituto Psicanalítico da Sociedade Britânica, o qual se manteve por 25 anos.

 

Foi ainda, por dois mandatos consecutivos, Presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise. Continuou trabalhando no hospital Paddington Green Children's até os anos 60.

 

Membro da UNESCO e coordenador de vários grupos de estudos, autor de vários textos, conferencista, bem como a constante prática clínica.

 

Nos anos 50 e 60, Winnicott desfrutou de uma vida rica e ocupada, cheia de incontáveis palestras públicas e de uma infinidade de horas de trabalho clínico, aulas, supervisões e a elaboração de textos, assim como a participação considerável na administração de diversas organizações profissionais.

 

Winnicott, em suas palestras, sempre atraía um grande público. Certa vez a Srta. Wills (1965) lhe comunicou que "Sua presença, como sabe, sempre atrai uma multidão considerável, e alguém murmurou para mim: a presença do Dr. Winnicott é tão boa quanto à dos Beatles!".

 

A partir de 1936, ele passou a dar um curso regular sobre crescimento e desenvolvimento humano para professores do Instituto de Educação de Londres, a convite de sua amiga pessoal e colega, a Dra. Susan Isaacs (WINNICOTT, 1953f, 1967c; CLARE WINNICOTT, 1988).

 

A partir de 1947, deu palestras para estudantes de assistência social na Escola Londrina de Economia e Ciências Políticas (CLARE WINNICOTT, 1988), incluindo uma série de conversas sobre A Clinical Approach to Family Problems, estendendo, assim, sua influência aos diversos ramos da saúde mental.

 

Winnicott ao preparar suas palestras levava um tempo considerável. Uma vez escreveu ao colega Michael Balint: "Mesmo um texto de Winnicott tem que ser minimamente planejado com antecedência" (WINNICOTT, 1952d). Dizia que seus textos requeriam um período de gestação inconsciente: "por exemplo, quando escrevo um texto para esta Sociedade sobre algum assunto, vejo-me quase sempre sonhando com coisas relacionadas a esse assunto" (Winnicott, 1949d, p. 177, p. 2). Como comentou sua viúva Clare (1988, p. ix): "suas palestras podiam ser soltas e parecer desestruturadas apenas porque estavam baseadas num núcleo central de conhecimentos integrados".

 

Winnicott tinha uma boa reputação como conferencista interessante e espontâneo, e a British Broadcasting Corporation (BBC) convidou-o a falar para pais e mães pelo rádio. Entre 1939 e 1962, ele participou de cerca de cinqüenta programas sobre uma enorme gama de assuntos, que variaram desde a contribuição do pai (WINNICOTT, 1944b), o filho único (WINNICOTT, 1945d), a importância de visitar as crianças no hospital (WINNICOTT, 1951b), e a dinâmica da adoção (WINNICOTT, 1955d) até a psicologia dos pais adotivos (WINNICOTT, 1955f), o significado do ciúme (WINNICOTT, 1960f) e as vicissitudes da culpa (WINNICOTT, 1961f).

 

Além dessas conversas individuais pelo rádio, Winnicott preparou ainda dois conjuntos completos de palestras memoráveis. Janet Quigley produziu a primeira série em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, e essas palestras apareceram posteriormente sob a forma de um panfleto, sob o título de Getting to Know Your Baby, que continha as transcrições de seis programas radiofônicos (WINNICOTT, 1945a) e era vendido por um shilling. A capa do pequeno folheto mostrava a reprodução de um entalhe em madeira de uma mãe com seu bebê feito por Alice Winnicott.

 

Outra produtora, a Srta. Isa D. Benzie, do Departamento de Palestras da BBC, ofereceu a Winnicott a oportunidade de preparar várias outras palestras sobre o tema "The Ordinary Devoted Mother", que foram ao ar em 1949-1950. Nove transmissões dessa série foram lançadas no panfleto "The Ordinary Devoted Mother and Her Baby: nine broadcast talks" (autumn, 1949) (WINNICOTT, 1949a). Essas transmissões atingiram milhões de pessoas. Até hoje, aqueles que lêem as transcrições (WINNICOTT, 1957a, 1957b, 1964a, 1993) ficam maravilhados com a capacidade de Winnicott de se comunicar de maneira educada e espontânea com os pais e de oferecer-lhes bons conselhos e suporte sem degradar o que ele chamava de sua habilidade natural para compreender os próprios filhos (WINNICOTT, 1949c).

 

Winnicott tinha uma predileção por escrever cartas e numa carta à Dra. Ilse Hellman, psicanalista, confessou: "Tenho uma certa fama por escrever cartas, e estou tentando deixar esse vício". Após sua morte, ele deixou centenas de fascinantes cartas inéditas, que sua esposa preservou em cadernos especiais (RODMAN, 1987a).

 

Winnicott foi presidente do comitê de investigações da Associação Psicanalítica Internacional, que investigou a prática clínica do analista francês, o Dr. Jacques Lacan. Em 1953, Winnicott e vários colegas (a Dra. Phyllis Greenacre, a Sra. Hedwig Hoffer e a Dra. Jeanne Lampl-de Groot) entrevistaram diversos membros da instituição de Lacan, a Société Française de Psychanalyse, assim como membros da clássica Société Psychanalytique de Paris, que alegavam que Lacan conduzia sessões de psicanálise mais curtas. O comitê, com razão, expressou sérias dúvidas a respeito do trabalho de Lacan como profissional (HARTMANN, 1953, 1955; CLANCIER e KALMANOVITCH, 1984; ROUDINESCO, 1993).

 

Winnicott também demonstrou ser de grande ajuda no estabelecimento de uma sociedade de psicanálise na Finlândia, juntamente com sua colega britânica, a Srta. Pearl King, fazendo visitas e oferecendo seminários de supervisão numa série de ocasiões.

 

Além disso, realizou duas grandes turnês de palestras pelos Estados Unidos da América, uma em outubro de 1962 e outra em outubro de 1963. Ele ainda retornou aos Estados Unidos pelo menos em duas ocasiões, em outubro de 1967 e finalmente em novembro de 1968, para falar na Sociedade Psicanalítica de Nova York (WINNICOTT, 1969b) e em outras instituições (WINNICOTT, 1968g; LANGS, comunicação pessoal, 21 de abril de 1994).

 

Winnicott deu palestras na Escócia por diversas vezes. Entre as visitas à Europa Continental estão palestras em Paris, Roma, Genebra, Copenhagen, Lisboa, Helsinque e Amsterdã. Além disso, fez pelo menos uma conferência no Canadá e um grande número de palestras pelo interior da Inglaterra, para uma grande variedade de organizações.

 

Entre as homenagens prestadas a Winnicott estão sua eleição, em 1944, como membro do Royal College of Physicians (F.R.C.P.), além da Royal Society of Medicine e da British Psychological Society.

 

Obteve também outros cargos, como o de presidente da Seção Médica da British Psychological Society, presidente da Seção de Pediatria da Royal Society of Medicine e presidente da Associação para Psicologia e Psiquiatria Infantil.

 

Em 1955, tornou-se também conferencista do Departamento de Desenvolvimento Infantil do Instituto de Educação da Universidade de Londres.

 

Finalmente, em 1968, foi eleito membro honorário da Royal Medico-Psychological Association, e recebeu a cobiçada Medalha James Spence de Pediatria, prêmio que leva o nome de um dos heróis pessoais de Winnicott, o Professor Sir James Spence, ilustre médico de crianças nascido em Newcastle-upon-Tyne, o qual insistia em que as mães e os bebês recém-nascidos não deviam ser separados no momento do nascimento – até hoje um procedimento muito comum nas maternidades (WINNICOTT, 1948b).

 

A Sociedade Psicanalítica Finlandesa também homenageou Winnicott, convidando-o a tornar-se membro honorário. Recebeu, ainda, o título de Cavaleiro das mãos da rainha Elizabeth II.

 

Já mais perto do fim da vida, Winnicott escreveu um ensaio sobre a monarquia, onde mencionou que vivia bem próximo do Palácio de Buckingham. Sabemos que ele tinha vontade de encontrar-se pessoalmente com Elizabeth II, e no texto sobre "The Place of the Monarchy" (WINNICOTT, 1970c, p. 266), ele até mesmo permitiu-se ponderar a respeito da monarca, afirmando que "ela é um ser humano que posso ver, enquanto espero por um táxi, saindo em seu carro do Palácio de Buckingham para cumprir alguma obrigação, a qual faz parte do desempenho do papel que o destino lhe designou".

 

Infelizmente, nem Winnicott nem qualquer outra pessoa jamais se tornou Cavaleiro por serviços prestados à psicanálise.

 

 

A VIDA PESSOAL ...

 

Em 1923, Winnicott casa-se com Alice, vindo a se separar em 1949, ano de suas bodas de prata. Winnicott freqüentemente enviava livros a Alice, após sua separação, inclusive a presenteou com Collected Papers: through Paediatrics to Psychoanalysis (Textos Selecionados: Da pediatria à psicanálise). (WINNICOTT, 1958a; ALICE WINNICOTT, 1958b).

 

Alice Winnicott veio a falecer em 19 de novembro de 1969, no Hospital Bronglai, em Aberystwyth, de broncopneumonia, hipotermia e disfunção renal.

 

Winnicott casou-se pela segunda vez em 1951, com Clare Britton, Assistente Social psiquiátrica. Trabalharam muito para dar conta dos abrigos psiquiátricos, tornando-se especialistas reconhecidos no manejo e tratamento de jovens "difíceis" transferidos de Londres, sendo convidados pelo Comitê Curtis a fornecer relatórios orais e escritos sobre suas experiências, o que constituiu, em parte, a base para o Estatuto da Criança de 1948 (CLARE WINNICOTT, 1984).

 

Era característica de Winnicott raramente escrever em colaboração com outras pessoas, entretanto, com Clare escreveram juntos um ensaio para publicação sobre "The Problem of Homeless Children" (WINNICOTT e BRITTON, 1944), seguido por outro artigo em conjunto, "Residential Management as Treatment for Difficult Children" (WINNICOTT e BRITTON, 1947).

 

Clare submeteu-se a uma nova formação, qualificando-se como psicanalista em 1961, tendo feito tratamento psicanalítico por algum tempo com o Dr. Clifford Scott (que também havia tratado de Alice Winnicott) e mais tarde com a tempestuosa Melanie Klein. Após a morte de Winnicott, Clare submeteu-se a um período de tratamento com Lois Munro e mais tarde com o Dr. Peter Lomas (RYCROFT, comunicação pessoal, 27 de janeiro de 1996).

 

No dia 31 de dezembro de 1948 morre o pai de Winnicott, o Sr. Frederick Winnicott, aos noventa e três anos. Neste mesmo período, Winnicott sofre a primeira série de tromboses coronárias, que o atormentariam até a morte. Para convalescer, Winnicott tirou férias do trabalho no Hospital Infantil Paddington Green por cerca de três meses (ELKAN, comunicação pessoal, 6 de outubro de 1994).

 

 

A TEORIA DE WINNICOTT ...

 

Não podemos, nos dias de hoje, falar na teoria psicanalítica no singular. O olhar do processo analítico deve ser além de teórico-clínico, também epistemológico. Assim vê-se a contribuição de Winnicott quando nos aponta a importância do entrelaçamento do indivíduo com o meio.

 

Para ele, a essência da criatividade está no processo de destruição e recriação dos objetos. Esta idéia faz parte de sua teoria das relações objetais. Utilizando a metáfora da relação do bebê com o seio materno, propõe que a destruição do objeto-seio, na fantasia, precede o uso criativo dos objetos. Sua contribuição original à teoria psicanalítica pode ser assim entendida: um esforço para recriar, de maneira pessoal, aspectos de uma teoria imaginariamente destruída por ele.

 

É preciso entender, porém, que, para ele, o fator tempo é necessário para que o bebê reconheça a mãe como um objeto e atribua ao pai uma significação enquanto pessoa do sexo masculino.

 

No início, não existe o terceiro, pois sequer existe o segundo. Interessado pelos momentos iniciais da constituição do psiquismo, Winnicott propõe que, quando o pai cuida do filho, naquela fase em que o bebê não se distingue do meio ambiente, sua função é igualmente materna. Ou ainda que, no início da vida do bebê, a função do pai é apoiar a mãe, juntamente com a família e a sociedade, para que ela possa desempenhar essa tarefa tão complexa e delicada que é participar da emergência de um sujeito.

 

Para Winnicott, a percepção criativa da realidade é uma experiência do self, núcleo singular de cada indivíduo. Noções deste tipo indicam uma tendência mais existencialista que empirista no pensamento de Winnicott.

 

Os que pesquisaram as bases do pensamento de Winnicott dão ênfase especial aos temas do Romantismo inglês, sobretudo como se apresentam na poesia inglesa dos séculos XVIII e XIX. A importância da subjetividade e da espontaneidade, a preferência pelo criativo sobre o complacente, pela vida interna natural sobre a vida artificial imposta de fora, a consideração das emoções como forma de conhecimento são temas, entre outros, comuns aos poetas românticos, que se apresentam centrais na obra de Winnicott.

 

Os pensamentos de Winnicott se desenvolveram numa época em que a ciência e a arte se relacionavam de maneira intensa.

 

Winnicott acreditava que a mãe suficientemente boa é aquela que possibilita ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele, concedendo-lhe, assim, a experiência da onipotência primária, base do fazer-criativo.

 

Em 1931, Winnicott publica um livro de pediatria chamado Clinical Notes on Disorders of Childhood este fazendo parte da "Practitioner's Aid Series". Esse volume ajudou a explicar as raízes psicológicas de algumas doenças infantis. O livro tornou-se um clássico na história da pediatria e psicanálise.

 

No prefácio de seu livro, Winnicott faz um reconhecimento a Sigmund Freud, que lhe proporcionou a "capacidade crescente de valorizar a investigação dos fatores emocionais" (WINNICOTT, 1931, p. v). Coloca ainda que "este livro procede do coração de um clínico, e não do cérebro de um estudioso de biblioteca; daí alguns de seus méritos e deméritos" (1931a, p. v).

 

A obra de Winnicott está embasada em sua prática clínica pediátrica e psicanalítica. Verifica-se, que ele nunca fez referências em seus textos, detendo-se sempre nos registros de seus casos.

 

Ele escreveu que muitas de suas idéias clínicas surgiram "simplesmente seguindo a orientação que me foi fornecida por um cuidadoso histórico clínico em inúmeros casos" (WINNICOTT, 1936, p. 34, p. 2). Talvez a maior expressão da gratidão de Winnicott para com as pessoas que ele tratou esteja na dedicatória de seu livro publicado postumamente, Playing and Reality, que diz, simplesmente: "A meus pacientes, que me pagaram para me ensinar" (WINNICOTT, 1971a).

 

Em seu primeiro livro Clinical Notes on Disorders of Childhood, não deixou de fazer referência às obras de Sigmund Freud, Melanie Klein e Ernest Jones e comentários sobre o trabalho de Susan Isaacs (1930).

 

A psicanalista britânica Sybille L. Yates fez uma crítica favorável ao livro, no International Journal of Psycho-Analysis, considerado o melhor periódico freudiano. Abaixo se pode observar o apreço pela obra de Winnicott e como resumiu o livro:

 

A recordação das passagens, geralmente escondidas no final, que na maioria dos livros sobre doenças infantis tratam da "criança nervosa", nos levará a ler com mais do que alívio às vívidas histórias clínicas do Dr. Winnicott. As imagens transmitidas nessas histórias das diversas personalidades de crianças neuróticas mostram que a "criança nervosa" dos livros é um mito, tanto quanto o "homem econômico". O autor chama a atenção para o fato, pouco percebida fora do pequeno círculo dos psicopatologistas clínicos, de que a infância é o tempo em que, com mais freqüência, as doenças do corpo são a expressão de conflitos emocionais. Como conseqüência, ele enfatiza a necessidade de compreendermos a criança como um todo e de considerarmos os elementos psicológicos no tratamento desses problemas. (YATES, 1932, p. 242-243)

 

Ernest Jones foi admirador do trabalho de Winnicott, encaminhando-lhe inclusive pacientes. Eis o que Ernest Jones disse quando foi presenteado por Winnicott com dois de seus livros publicados sobre os cuidados com bebês e crianças (WINNICOTT, 1957a, 1957b): "Muito obrigado pelos dois livros - que estou muito feliz por possuir, visto que aprecio demais os seus textos e idéias. Espero que eles sejam lidos em breve pelos dois membros de minha família em idade fértil, nesta May e a esposa de Lewis" (JONES, 1957). Certamente o Dr. Jones significou muito para Winnicott. Ele escreveu para a mulher Katherine, antes da morte de Ernest Jones, afirmando: "o Dr. Jones e toda a sua família significaram muito para mim".

 

Winnicott mostrou maior interesse ao longo de sua obra pelo relacionamento real entre a criança e a mãe. Além disso, Winnicott com seu trabalho com crianças enfatizava a saúde, suas necessidades e seu desejo de serem amadas.

 

Winnicott era membro do grupo que assessorava a Pesquisa de Avaliação da Evacuação de Cambridge (Cambridge Evacuation Survey), supervisionado pela educadora pioneira Susan Isaacs (Isaacs, Brown & Thouless, 1941; KING, 1991b). Trabalhou, além disso, com Edward Glover numa pesquisa nacional para o Ministério da Saúde a respeito da saúde mental dos civis entre os anos de 1939 e 1943, conhecida como a "Pesquisa da Neurose" (KING, 1991b). Ele ainda ajudaria seu colega jungiano Michael Fordham (comunicação pessoal, 13 de fevereiro de 1994) no trabalho de evacuação de Nottingham, conseguindo, além de tudo isso, arranjar tempo (WINNICOTT, 1941c) para participar do Grupo de Discussões sobre a Criança, organizado pela Srta. Theodora Alcock (1948) (BOSTON, comunicação pessoal, 28 de setembro de 1994).

 

Conforme Winnicott foi se tornando mais experiente no trabalho com as crianças evacuadas, começou a descobrir a terrível validade de suas previsões clínicas, deparando-se com sintomas problemáticos como enurese, irritações epidérmicas, tiques nervosos e uma série de outras manifestações graves (WINNICOTT, 1945e; WINNICOTT e BRITTON, 1947).

 

Algumas das crianças dos abrigos supervisionados por Winnicott passaram por perdas emocionais consideráveis, antes mesmo do início da guerra, demonstrando uma delinqüência extrema, assim como outros sintomas tipicamente psicóticos. O trabalho com esse tipo de paciente representou um novo ponto de partida clínico para Winnicott, que antes tivera pouco contato com a delinqüência infantil (CLARE WINNICOTT, 1984). A sintomatologia das crianças incluía, entre outros, enurese noturna, incontinência fecal, roubos em grupo, incêndio de montes de feno, fuga da escola, fuga do abrigo, vandalismo nos trens e amizades com soldados locais (WINNICOTT e BRITTON, 1947).

 

Clare Winnicott foi muito importante na vida de Winnicott, uma vez que seus livros e textos originais foram escritos durante o segundo casamento. O The Family and Individual Developement (WINNICOTT, 1965b) foi simplesmente dedicado "A Clare". Logo que se conheceram, Winnicott escreveu a Clare: "Você faz com que eu me sinta perspicaz e produtivo, e isso é terrível – pois quando não estou com você sinto-me incapaz de qualquer ação e originalidade" (CLARE WINNICOTT, 1978, p. 32). Observa-se a relação direta dos casamentos de Winnicott com a sua produção científica. Quando casado com Alice Taylor, Winnicott publicou apenas um livro, sobre pediatria (WINNICOTT, 1931a). Já com Clare Britton, produziu mais seis livros antes de morrer (WINNICOTT, 1957a, 1957b, 1958a, 1964a, 1965a, 1965b), escrevendo ainda ensaios, palestras e cartas que foram publicados postumamente (WINNICOTT, 1971a, 1971b, 1978, 1984a, 1986a, 1986b, 1987a, 1987b, 1988, 1989, 1993, 1996).

 

 

SEUS PENSAMENTOS ...

 

Para estudar o conceito de mente, deve-se sempre estudar um indivíduo, um indivíduo total, incluindo o desenvolvimento deste indivíduo desde os primórdios de sua existência psicossomática. Caso se aceite esta disciplina, então se pode estudar a mente de um indivíduo à medida que ela se especializa a partir da parte psíquica da psique-soma. (WINNICOTT, [1949] 1982, p. 409)

 

Avaliar em que exatamente consistem os elementos mentais irredutíveis, especialmente os de natureza dinâmica, constitui, na minha opinião, um dos nossos objetivos finais mais fascinantes. Estes elementos têm necessariamente um equivalente somático e provavelmente neurológico e, desta forma, através do método científico, deveríamos ter estreitado bastante a antiga distância entre a mente e o corpo. Aventuro-me a dizer que, então, considerar-se-á a antítese que se constituiu em um estorvo para todos os filósofos como algo baseado em uma ilusão. (Winnicott, [1949] 1982, p. 409)

 

"Esta elaboração psíquica do funcionamento fisiológico é bastante diferente do trabalho intelectual que facilmente se torna artificialmente uma coisa em si e falsamente um lugar onde a psique pode se alojar". (WINNICOTT, [1949] 1982, p. 420)

 

AS CARTAS ...

 

Carta 1 de 19 de Novembro: Sobre a psicanálise: "sua prática requer paciência, solidariedade, além de outras qualidades...".

 

Carta 11: Sobre a capacidade imaginativa: "a boneca é muito mais do que um bebê não vivo".

 

Carta 57 para Bion: "Julgo-me capaz de vituperar contra o grupo kleiniano, sem alterar um mínimo que seja de minha opinião a respeito da Senhora Klein, como sendo uma pessoa adorável, a quem deve tanto quanto a Freud e que contribui tão plenamente para a ciência".

 

Admiração a Bion: "Penso em você como o grande homem do futuro na Sociedade Britânica de Psicanálise".

 

Carta 25 para Melanie Klein: "Você é a única que pode destruir esta linguagem chamada doutrina kleiniana".

 

 

A DESPEDIDA ...

 

O homem espontâneo, como ficou conhecido, faleceu em 1971, de uma coronariopatía. Seus restos foram incinerados e descansam em Londres.

REFERÊNCIAS

 

 

KAHR, Brett. D. W. Winnicott - um retrato biográfico. Rio de Janeiro: Exodus, 1998.

 

 

LINS, Maria Ivone Accioly. Winnicott: a obra como história de vida.
In: PODKAMENI, Angela B.; GUIMARÃES, M. Antonio Chagas (orgs.). Winnicott na PUC - 100 anos de um analista criativo. Rio de Janeiro: NAU, 1997, p.13-22.

 

WINNICOTT, Clare. (1995) D.W.W: uma reflexão. In: GIOVACHINI, Peter (org.) Táticas e técnicas psicanalíticas. (Trad. José Otávio de Aguiar Abreu). Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

 

 

WINNICOTT, Donald. Da pediatria à psicanálise. São Paulo: Francisco Alves, 1982.

 

 

WINNICOTT, Donald. (1931-1956). Escritos de pediatría y psicoanálisis. Madrid: Laia: 1979.

 

 

WINNICOTT, Donald. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas: 1983.

 

 

WINNICOTT, Donald. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1985.